MISTÉRIO NOS BASTIÕES: A LENDA DO JUAZEIRO E O ASSOMBRO DE JOSÉ PACHECO
Por Francisco Filho
Especial para o Blog Folha Serrana
Nem só de tiroteios e disputas políticas se faz a memória da Serra dos Bastiões. Quem conhece as curvas sinuosas da nossa ladeira sabe que, quando a noite cai e o vento sopra mais forte entre a caatinga, o sagrado e o profano se misturam em relatos de arrepiar os cabelos. Esta não é uma história de ouvir dizer: é um relato verídico, testemunhado por nossa reportagem, que envolve o saudoso José Pacheco, um homem destemido e respeitado em nossa região, cuja experiência deu origem à famosa Lenda do Juazeiro.
Conhecido por sua coragem inabalável, Seu José Pacheco andava a cavalo e não temia assombração, bicho ou homem vivente. Até que uma noite escura de inverno mudou sua vida para sempre.
AS VOZES DO ALÉM NA LADEIRA DA SERRA
Naquela noite, Seu José Pacheco subia a Ladeira dos Bastiões montado em seu fiel burrinho. O silêncio da mata era quebrado apenas pelo som dos cascos do animal contra as pedras da estrada. No entanto, ao se aproximar de um frondoso pé de juazeiro que resiste ao tempo à margem da ladeira, a atmosfera mudou drasticamente.
Vindo do meio das folhas da árvore, Seu José começou a ouvir nitidamente barulho de conversas, risadas altas e o tilintar de copos, como se uma grande festa estivesse acontecendo ali mesmo, na escuridão. O mais aterrorizante: ele reconheceu as vozes. Eram sussurros e gargalhadas de pessoas conhecidas da comunidade que já haviam partido para o além.
Homem valente que era, ele não demonstrou medo. Ignorou o arrepio na espinha e continuou a viagem.
"POSSO MONTAR?" – O PASSAGEIRO INVISÍVEL
Foi então que o inacreditável aconteceu. Do meio do nada, uma voz cavernosa e fria cortou o silêncio e perguntou diretamente ao cavaleiro:
— Posso montar?
— Posso montar?
Sem titubear, guiado pelo orgulho e pela coragem sertaneja, Seu José Pacheco respondeu em alto e bom som:
— Pode!
— Pode!
No mesmo instante, o cenário ficou completamente sombrio. O burro arqueou as pernas, sentindo um peso esmagador sobre o lombo. Seu José sentiu o toque nítido de uma mão gelada repousando firmemente sobre o seu ombro. Assustado, ele olhou para trás com rapidez, mas os seus olhos não viram ninguém. Havia apenas o vácuo e a certeza de que carregava uma alma penada na garupa.
O TOMBO NA PORTEIRA E OS TRÊS DIAS DE APAGÃO
O animal, completamente afrontado e exausto pelo esforço sobrenatural, subiu o restante da Ladeira dos Bastiões como se estivesse puxando uma tonelada. A criatura invisível viajou na garupa até as proximidades da residência do cavaleiro.
Ao cruzarem a porteira que dava acesso à casa, o encanto ou a provação terminou de forma abrupta. As forças de ambos se esgotaram: o burro desabou desmaiado para um lado e Seu José Pacheco caiu desacordado para o outro.
Socorrido às pressas por moradores locais e familiares que testemunharam o estado de choque dos dois, Seu José foi carregado para dentro de casa. Ele permaneceu três dias seguidos em um sono profundo e desacordado, pairando entre a vida e a morte.
O MISTÉRIO QUE RECONDUZIU UMA VIDA
Quando finalmente acordou, com os olhos marejados e o semblante mudado, Seu José Pacheco reuniu a família e contou em detalhes o horror que viveu sob a sombra do juazeiro. Os mais velhos dizem que, a partir daquela noite, ele nunca mais foi o mesmo homem. A vivacidade deu lugar a um respeito profundo pelo invisível.
Seu José Pacheco viveu muitos anos, alcançou a velhice e faleceu, mas levou consigo o segredo daquela noite. Até hoje, quem passa tarde da noite pelo pé de juazeiro na Ladeira dos Bastiões aperta o passo, evita olhar para trás e reza em silêncio, sabendo que as almas da serra guardam mistérios que a nossa razão não consegue explicar.

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