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MISTÉRIO NA NOITE: O DUELO DE TIO DÃO COM O LOBISOMEM DO AÇUDE E O SUMIÇO INEXPLICÁVEL


Por Francisco Filho

Especial para o Blog Folha Serrana
O sertão antigo era governado por caminhos estreitos e pela escuridão profunda que as lamparinas mal conseguiam vencer. Foi nesse cenário de isolamento e mistério que o meu próprio tio, conhecido por todos como Tio Dão, viveu uma das experiências mais aterrorizantes e reais de que se tem notícia na nossa região. Uma história verídica de coragem, sangue e um desaparecimento que, até hoje, desafia a razão e deixa a nossa família sem respostas.
O ALERTA NO CLARO DA LAMPARINA
Naquela época, não existiam estradas vicinais. Para se locomover entre as comunidades, era preciso seguir a cavalo por veredas apertadas, cercadas pelo mato fechado. Em uma noite que parecia comum, Tio Dão selou seu animal e partiu rumo a um sítio distante para visitar a namorada.
Lá, passou a noite no claro da lamparina, ajudando a família da moça no debulhar do feijão, entre conversas e risadas. O tempo voou. Quando Tio Dão decidiu que era hora de pegar o caminho de volta, a madrugada já avançava alta. Preocupados, os familiares da namorada imploraram para que ele ficasse:
— Não vá, Dão. Está muito tarde e tem criaturas perigosas andando pela noite.
Destemido, ele agradeceu o aviso, montou em seu cavalo e pegou a vereda escura de volta para casa.
O CONFRONTO BRUTAL NA PAREDE DO AÇUDE
O caminho de retorno exigia que Tio Dão passasse por cima da parede de um açude da região — um corredor estreito, cercado por uma mata densa, fechada e completamente escura. Foi ali que o perigo se anunciou. De longe, o cavalo estancou, relinchou de pavor e começou a recuar.
No meio do caminho, vinha ao seu encontro uma figura enorme, peluda e tomada por um mau cheiro insuportável. Era o bicho. Percebendo que o animal não avançaria, Tio Dão desmontou com agilidade e puxou o facão afiado que trazia na cintura.
A criatura veio com tudo para cima dele. No chão da parede do açude, homem e fera travaram uma batalha mortal. O bicho era incrivelmente rápido e os golpes de facão pareciam não surtir efeito. Foi quando a sabedoria sertaneja falou mais alto: lembrando-se das antigas rezas e mandingas contra o mal, Tio Dão tirou o chapéu de couro da cabeça, cobriu a lâmina do facão e esperou o momento exato. Quando o monstro avançou para o bote final, meu tio desferiu um golpe certeiro. O bicho soltou um urro de dor e correu para o mato.
A REVELAÇÃO DO HOMEM-BICHO E O AVISO FINAL
Sangrando e exausto, Tio Dão montou no cavalo e seguiu o rastro de sangue pela vereda. Pouco mais à frente, no meio da mata, a transformação havia desfeito o feitiço: caído ao chão, estava um homem da região, completamente sem roupas e ferido pelo golpe do facão.
Indignado, meu tio questionou:
— Por que você me atacou?
Gimando de dor, o homem respondeu com a voz fraca:
— Eu era um animal... Agi por instinto.
Olhando nos olhos daquele que se transformava, Tio Dão deu o ultimato:
— Junte suas coisas, vá embora da região e nunca mais apareça por aqui.
O homem obedeceu, sumiu no mundo e nunca mais foi visto nas redondezas. No sertão, o povo antigo carrega uma crença fúnebre: quem descobre a identidade de um lobisomem e o fere, fica marcado para sempre e passa a ser perseguido pelas forças do oculto.
O SUMIÇO INEXPLICÁVEL
Anos se passaram após o terrível duelo. Tio Dão seguiu sua vida longe dali, mas a marca daquela noite parecia não ter se apagado por completo. Muito tempo depois, ele decidiu voltar à nossa região com um único objetivo: visitar minha mãe, sua querida irmã.
Eles se reencontraram, mataram a saudade e conversaram sobre o passado. Porém, o mistério final dessa história se consolidou logo após essa visita: depois daquele encontro familiar, tanto Tio Dão quanto a minha mãe desapareceram. Ambos nunca mais foram vistos e jamais deram qualquer notícia até os dias de hoje.
O que aconteceu com eles naquela mata? Teriam as forças da noite cobrado a antiga dívida da parede do açude? Sumiram por escolha ou foram levados pelo mistério? Na nossa região, ninguém sabe explicar. Fica o registro dessa crônica verídica, guardada na carne e no sangue da nossa família.

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