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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Professor Rilmar Cavalcante fala sobre memórias de uma infancia


Lembro-me bem a casa onde nasci. A velha casa da minha avó, tinha uma sala, um corredor de comprimento igual ao do quarto à direita e uma cozinha pequena acanhada, onde havia um fogão de quatro bocas a lenha e uma mesa redonda de quatro assento, um virado para parede. 

No início do corredor um bote d’água e no final à esquerda um armário para guardar pratos, copos e talheres. O quarto era escuro e me dava medo. Não existia móvel, no quarto uma cama não confortável de madeira rústica e colchão de palha. Eu e meus avôs dormíamos na sala. No canto entre duas paredes formando um ângulo reto armava-se minha rede, total branquinha. As duas redes ocupadas pelos meus avós iam da parede da frente da casa a parede do quarto e havia um velho baú que guardava de tudo. De dia, meu avô paciente artesão trabalhava em seu ofício.

Calado, ele economizava palavras, absorto alisava com carinho a madeira ainda rústica, dava forma de arte. As horas passavam e as coisas eram tão monótona que o final do dia nunca ia chegar. Em sua rotina ia construindo colheres de paus e pequenos pilões, verdadeira obra de arte.

     Minha avó, mulher de caráter forte, descente dos Demétrio Cavalcante, tinha ascendência no circundo familiar. Filha de senhor de engenho e herdeira da estirpe senhoril da época.

     Nos anos 50 e 60, do século XX, assisti e ouvi histórias de brigas, de fome, de morte, do cangaceiro lampião, de padrinho padre Cícero, e, pincipalmente da política. Histórias alegres e tristes, outras contadas através dos cordéis, entretanto, anos depois, já adolescente, lia folhetim de cordel para minha avó, que guardava com carinho numa caixa o registro dos cantadores populares.

     Minha avó pela manhã recebia pessoas a prosear os mais variados assuntos. Na sala uma espreguiçadeira sempre bem cuidada e limpa, este assento guardado zelosamente para receber o homem mais ilustre da cidade, Humberto Queiroz, farmacêutico e ex interventor no governo de Getúlio Vargas.

     Neste ambiente de histórias, ficava a ouvir de tudo, das doenças da alma, até histórias assombrosas de burra de padre, lobisomem, e coisa desse gênero fartamente à baila, cada uma em sua época de conveniência, depois de anos, ante tanta ingenuidade vim compreender tais motivos.

     A casa da minha avó ficava quase em enfrente a casa de força que gerava energia, o motor antigo comprado pela prefeitura. Não preciso dizer que, a cidade ficava no escuro, a raridade era a cidade ficar iluminada, pois, a eficiência do velho motor, que chegara a Pereiro para o descanso, ou seja, tinha mas valia como peça de museu. Eu, já adolescente, nos anos sessenta e outros amigos muitos afoitos para época, motivos constantes pela necessidade de energia elétrica, que só for resolvido pela visão de homem público, o governador Virgílio Távora. Nossa audácia coube com o poder público local, arrosto principalmente aos nossos países. Numa noite de escuridão, no uso da linguagem popular, a noite estava um breu, e no comando de Falcão, Pereiro iluminou-se, não tão somente, pela incandescência das lamparinas, mas pela aquela manifestação cívica e propositalmente inusitada para Pereiro.

     Quando tento conta fatos de Pereiro, principalmente em minha ótica, certamente, estou fazendo leitura muito particular. Neste caso afirmo, talvez não seja a pessoa mais suscetível a esta tarefa. Peço que veja, pelo lado singular do narrador. Não é desculpa ou humildade que aqui não cabe, pois o interesso é somente de resgate para mim, quiçá, a poucos seja eu entendido.

Prof.: Rilmar Cavalcante





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